Cacau e café: um intercâmbio entre a Amazônia e a África - Mercado do Cacau
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Cacau e café: um intercâmbio entre a Amazônia e a África

Cacau e café: um intercâmbio entre a Amazônia e a África

O fotógrafo documental Marcelo Oséas fala sobre uma experiência internacional que desperta interesses sobre a origem e a exportação dos nossos frutos

Em 2010, após conseguir inéditos 35 dias de folga do trabalho, coloquei uma mochila nos ombros e embarquei para o famigerado “mochilão na Europa”. O roteiro, de uma época pré-smartphone, foi montado com base em blogs, livros de viagem e, obviamente, dedicava alguns dias entre a França e a Bélgica para provar aqueles que seriam os melhores chocolates do mundo.

Tudo era sempre apresentado de maneira impecável: as formas, as técnicas, a qualidade dos produtos. Mal sabia eu que o roteiro chocólatra seria abruptamente interrompido após uma pergunta, tão singela: “Seria possível visitar a plantação de cacau de vocês?”. E a resposta, reveladora: “Nosso cacau vem do Sul da Bahia no Brasil, senhor. A origem do chocolate é da Floresta Tropical, da América.”. Não sei o que me surpreendeu mais, a minha ignorância ou o branding tão bem construído do chocolatier europeu.

Essa história precisamente é a origem dos meus questionamentos a respeito de brasilidade, de latinidade. Sim, eu já estudava o Brasil antes, mas ali eu percebi a necessidade de rever toda a minha construção de valores. Seriam as minhas crenças, escolhas próprias ou o resultado conduzido de uma opinião não necessariamente real? Ali, tão longe de casa, meu território me chamava de volta.

Voltei a Europa novamente em 2015, para diversos países, dessa vez por conta de um projeto fotográfico. Tive o privilégio de ficar muito tempo na Itália, de conhecer famílias interioranas magníficas e de turistar um pouco, naturalmente. No roteiro, estava aquela famosa cafeteria do filme Comer, Rezar e Amar, onde podíamos escolher grãos de diversas origens, do Sul de Minas à Guatemala. “O melhor café é o italiano”, diriam. Ali, menos ignorante, eu sabia que não se referiam aos grãos de café, mas ao método aperfeiçoado por eles – o espresso.

Muitas versões de mim mesmo depois, em 2019, vejo-me conduzido por um indígena da etnia Munduruku, em uma de suas trilhas sagradas. Havia certa sinergia entre nós, eu já estava convivendo com eles há algum tempo, então batíamos papo alegremente até que, de forma despretensiosa, deparo-me com um cacaueiro selvagem, nativo da Amazônia, com frutos maduros.

Abrimos o fruto e o consumimos, já com a fome do horário do almoço. Nós quatro – eu, Edimar Munduruku, seu filho Iuri e a guia e ativista Lalah Amazônia – naquele trecho de floresta nos conectamos com os 5.300 anos, registrados, de uso do cacau na Amazônia. Inicialmente consumido como uma bebida sagrada pelos Maias e Astecas, onde os grãos eram macerados, misturados à água e geralmente temperados com baunilha ou pimenta. Ditos como estimulantes e afrodisíacos, a bebida também era oferecida aos guerreiros e suas oleaginosas utilizadas até como moedas de trocas e pagamentos.

O café, acredite, não é nada brasileiro em seu nascimento. Ele tem sua origem rastreada há 3.000 anos, nas terras altas da Etiópia, África, região que ainda não tive o prazer de visitar. Consumido inicialmente como uma pasta macerada, na alimentação de animais e fortificante para os guerreiros, logo cruza a fronteira para o mundo Árabe e, por meio da expansão moura, em meados do século 14, chega ao território europeu com adaptações ao paladar da região e o desenvolvimento de diferentes métodos de consumo. Na Inglaterra, em 1652, é aberta a primeira casa de café da Europa Ocidental.

O tcholatl, como era chamado o chocolate pelos astecas, chega à Europa de forma bem menos romântica. Os espanhóis já haviam notado ao interceptarem embarcações indígenas que suas sementes eram bastante valorizadas, mas foi o invasor Hernán Cortés quem descobriu a sua utilização, em formato de bebida. Confundido pelo imperador Montezuma como um deus de sua crença, Cortés foi recebido com glórias, simpatia e litros da bebida sagrada tropical. Traindo a confiança local, os europeus voltaram a seu continente, tendo dizimado o império Asteca, literalmente com uma montanha de ouro, prata e sementes de cacau. Não tardou tanto para que o consumo do chocolate fosse europeizado e em 1657 é aberta a primeira casa de chocolate da Europa Ocidental, nos mesmos moldes das de café, também na Inglaterra.

Quando o cacau e o café são integrados à lógica de consumo europeia, a evolução de suas histórias passa a seguir mais regras de negócios internacionais do que escolhas culturais propriamente ditas. Quando olhamos exclusivamente para o Brasil, é óbvio que ao longo do tempo os dois elementos deste texto são figuras centrais de nossa cultura contemporânea. É impensável falar de hábitos brasileiros sem nosso chocolate, em especial os amazônicos e do Sul da Bahia, e nosso tão amado cafezinho cotidiano – assuntos para uma coluna futura, certamente.

Atualmente, em nosso país e em grande parte do mundo, temos movimentos que procuram revisitar as escolhas feitas por parte dos empresários cafeicultores e cacaueiros que, infelizmente, em busca de lucro, optaram por abdicar da qualidade de suas matérias-primas e a utilização de mão-de-obra em situações precárias de trabalho, análogas à escravidão. Bean to Bar (da semente à barra – de chocolate) e os cafés Gourmet e Especiais são movimentos contemporâneos, que buscam repensar escolhas anteriores nada éticas.

Ironicamente, o Brasil hoje é o maior produtor mundial de café, enquanto a Costa do Marfim, na África, é a maior produtora de cacau. O tempo e as ações de terceiros nos levaram a um magnífico intercâmbio de produção. A América e a África têm muito para trocar e se fortalecer. Quem sabe ao construirmos o futuro, mais conscientes, possamos aumentar nossos intercâmbios, mas sem os intermediários? Fonte: Revista Casa e Jardim

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